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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Recuperação ou Relação ?


Johann Hari é jornalista e durante 3 anos fez uma pesquisa sobre a adição.
Essa pesquisa levou-o aos 3 cantos do mundo, incluindo a Portugal, país que ele considera único e exemplar na forma como politica e socialmente lida com este problema.
E tudo isto porque tem toxicodependentes na familia e queria perceber melhor o mecanismo da adição.
Porque é que algumas pessoas usam drogas e param quando querem e outras não são capazes de o fazer?
Será que a penalização do consumo de drogas resolve alguma coisa?
Qual é a natureza da adição a drogas?
O que leva algumas pessoas a tornarem-se dependentes de químicos?
Já abordei este tema há dias quando falei das diferentes abordagens terapeuticas ao problema da adição.
Ou seja, há por um lado quem considere a adição uma doença primária, logo não tendo nada subsequente a ela, e por outro lado há quem considere a adição como uma espécie de auto-medicação em que o adito usa as drogas para lidar com algo que está subjacente.
As conclusões a que ele chega no final coincidem com a minha opinião.
Não se começa a usar drogas por se ser masoquista ou louco.
As drogas usam-se porque têm uma função.
Para alguns aditos, essa função é essencial, pois elas colmatam uma inaptidão social e uma inexistencia de relações interpessoais saudáveis.
Mesmo que tudo isto esteja mascarado para quem os observa.
Mesmo que aparentemente sejam funcionais, ao nível dos relacionamentos interpessoais existe uma disfunção, muitas vezes mesmo, um vazio.
Quem conhecer um adito a drogas que no inicio do seu uso fosse alguém bem estruturado mentalmente, com laços afectivos e sociais saudáveis, por favor apresentem-mo.
Obviamente que não sou médico e não faço ideia se algo se passa a nível do cérebro que possa ser considerado como uma doença.
O que sei é que os médicos estão divididos em relação a esta questão.
O que sei é que sem relações interpessoais saudáveis ninguém pode ser considerado são.
Daí que ele considera que o oposto da adição não é a sobriedade.
O oposto da adição são as relações.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Boas Festas


Esta é uma época simbólica. Ponto final.
Quer se seja cristão ou não, o Pai Natal está presente desde que, há uns anos atrás, a Coca Cola o usou num comercial.
De tal modo que as crianças quase esqueceram o Menino Jesus da minha infância.
Enfim, é uma moda alimentada pelo consumismo.
Mas é uma época em que as pessoas falam (algumas é a única altura no ano em que o fazem) de princípios espirituais e emoções positivas, como o amor, a compaixão, a amizade, o altruísmo, etc.
E algumas até aplicam esses princípios nas suas vidas nesta altura fazendo voluntariado junto dos sem-abrigo, por exemplo. 
Mesmo que nada mais façam pelos outros durante o resto do ano.
E também é uma altura em que se deseja que a guerra e a fome no mundo acabem.
Sem se fazerem mudanças pessoais que tornem possível isso acontecer.
Na verdade, nesta altura do ano, reinam a hipocrisia, o farisaísmo e a complacência.
Mas há que ser positivo e partilhar alegria e positividade!
Afinal, todas essas qualidades espirituais existem dentro de todos os seres humanos.
Assim, por favor, deixem sair o que de bom existe dentro de vós e comecem a mudar pois sem uma mudança individual não pode acontecer a mudança coletiva.
Comecem a dar de vós aos outros afim de chegarem ao próximo Natal e não ser mais preciso comprar prendas para ninguém pois já deram o que de melhor existe em vós.
E sejam felizes pois a felicidade não se compra.

P.S.
Em relação á mudança individual eu cá já decidi que vou começar a andar de bicicleta.
Faz bem á saúde e é amiga do ambiente...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Um clone da Flika? Não, obrigado...



Um casal pagou 60.000 libras a uma empresa sul-coreana para clonarem o seu cão que havia morrido e estão á espera do nascimento de 2 cachorros ainda este ano.
Mesmo que o procedimento corra bem qual será o resultado final?
Será uma cópia fiel do seu cão?
Até poderá ser.
Mas será somente uma cópia do seu corpo biológico.
Um clone da minha Flika poderia ser uma cópia biológica dela, mas seria de facto ela outra vez?
Teria a mesma personalidade, o mesmo modo de olhar para mim, as mesmas recordações, o mesmo modo de ressonar, a mesma teimosia e preguiça, enfim, teria as mesmas idiossincrasias que a definiam como ser único?
Creio que não.

A moeda final



Chamava-se David Duarte, tinha 29 anos e morreu porque os médicos que o poderiam ter salvo se recusam a trabalhar ao fim-de-semana pelo valor que o Estado paga.
Resumindo, David Duarte morreu por causa de dinheiro.
E isto dá que pensar. 
Ou, pelo menos, deveria dar que pensar a todos nós.
Deveria por-nos a pensar sobre o que realmente pretendemos alcançar enquanto aqui estamos nesta vida.
Qual é o nosso objetivo? O que pretendemos ganhar?
Em suma, qual é a nossa moeda final?
A resposta a esta questão não é difícil. Basta viver alguns anos em sociedade e rapidamente se constata que, para a maioria das pessoas, a moeda final é a riqueza material. 
O dinheiro e tudo o que se pode obter com ele.
Desde criança que se aprende esta crença.
A crença que ao adquirir riqueza seremos felizes.
E esta crença subsiste apesar de constatarmos que é falsa. 
Todos sabemos que existem pessoas ricas infelizes, que a depressão cresce exponencialmente na nossa sociedade sendo Portugal o país europeu onde se receitam mais benzodiazepinas e anti-depressivos.
E mesmo assim, teimamos em continuar a considerar a riqueza material como moeda final.
Apesar de todas as evidencias, persistimos em continuar na nossa insana demanda do Cálice Sagrado.
Continuamos a acreditar na falsa crença que diz que a riqueza traz felicidade.
E na persecução deste objetivo muitas vezes certos valores, como o altruísmo, são deixados de lado.
Para estes médicos que deveriam ter estado de serviço na noite em que David Duarte morreu, a moeda final não será a felicidade mas sim a culpa e a vergonha.
Estes médicos, tal como a maioria de nós, não entenderam que a única moeda final que pode trazer a felicidade é a própria felicidade.
Felicidade que só se obtém se as nossas ações não prejudicarem a expetativa de felicidade dos outros.
Felicidade que se obtém quando saímos do nosso egocentrismo e nos focamos nos outros.
Felicidade que, ao contrário da riqueza material, é inesgotável pois está dentro de nós e não fora.



domingo, 20 de dezembro de 2015

A droga é a doença ou a cura?


Interessante este artigo de um médico que analisa duas abordagens terapêuticas diferentes ao problema da adição a substancias, como o álcool e outras drogas.
E a pergunta é esta:
Quando um adito larga as drogas e passado um tempo comenta que se sente melhor mas ainda há "qualquer coisa" que lhe falta o que significa isso?
Será o vazio de já não ter as drogas ou será que é sinal de algo subjacente que causou a adição e que agora está a aparecer, como por exemplo um trauma?
Os que tratam a adição como uma doença primária, ou seja, sem nada subjacente a ela, dizem que se trata do vazio, do luto, e que agora há que educar o paciente para saber viver sem drogas.

Os que consideram a adição como consequência de algo subjacente veem o uso de substancias como que uma auto-medicação e, como tal, após parar com o uso de drogas há que lidar com o problema subjacente que causou a adição.
Seja qual for a conclusão, uma destas abordagens dá mais lucro aos profissionais de saúde pois haverá sempre mais que tratar após o paciente deixar de consumir substancias.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Perdoar



Porque é tão difícil para algumas pessoas perdoar a outras?
Ás vezes em relação a factos que já quase nem se lembram?
Quando os benefícios do perdão são apregoados por todas as grandes religiões?
Falando por mim, todas as vezes que me é difícil perdoar alguém é porque sinto o facto em causa como um ataque pessoal. 
Perceciono-o como uma agressão ao meu Ego, aquele companheiro que inventei logo desde criança afim de ter algo que me identificasse como pessoa.
E esse Ego desde logo identificou um Eu em contraposição aos Outros.
Como se houvesse uma diferença intrínseca.
Esquecendo que tudo no Universo é interdependente.
Até o meu corpo não tem existência intrínseca sendo formado por uma quantidade enorme de fenómenos e condições todas interdependentes umas das outras.
E todas em constante mudança.
E demorou muito tempo até verificar a ilusão de tudo isto. Muitos anos mesmo.
Muitos anos a funcionar no mundo vendo-me como uma entidade separada de tudo o resto.
Deste modo era difícil sentir empatia e identificação com os seres humanos quando estes me diziam algo que eu não gostava.
E, como tudo é interdependente, não saí deste circulo vicioso sozinho.
Precisei dos Outros.
Ao longo da minha vida alguns seres humanos que entraram na minha vida ajudaram-me a perceber algo que até é muito simples.
Que os outros seres humanos também têm defeitos como eu, que também têm maus dias, que também sofrem, que também erram, enfim, que buscam na vida exatamente aquilo que eu busco. A felicidade.
E sempre que alguém me faz algo que eu não gosto eu procuro pensar em tudo isto.
E quando consigo fazer isso, sinto o enorme beneficio do perdão.
A paz interior.
Um estado em que não existe nem a raiva, nem o ressentimento.
Um estado em que fico de bem comigo e com o mundo.
Mas é claro que nem sempre consigo fazer isso.
E por não conseguir sempre fazer isso é que fiquei maravilhado com a capacidade de perdão da menina desta foto.
Ela chama-se Myriam, tem 10 anos, é iraquiana e é cristã.
Vive num campo de refugiados uma vez que o Daesh ocupou a cidade onde vivia com a sua família, tendo perdido tudo. Tudo menos a sua integridade.
Pois ela perdoou o Daesh.
Numa entrevista a um canal de televisão ela disse que pedia a Deus para perdoar os terroristas do Daesh.
Pois é, os mestres não têm idade.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Confusão...

O petróleo é a grande fonte de rendimento do Daesh.
O Daesh que combate o regime sírio.
Regime sírio que compra o petróleo ao Daesh.
Isto para não falar na Turquia que é membro da NATO e também compra petróleo ao Daesh.
E a Russia que apoia o regime sírio unicamente para evitar que o gás natural dos Emirados chegue diretamente á Europa, da qual é agora o único fornecedor.
Ou a Arábia Saudita, ninho ideológico do jihadismo, que é aliada dos EUA e financia o Daesh.
Enfim, decididamente que não é com bombardeamentos que vamos lá...


Willy DeVille

"My passion comes from my music, which is an expression of the passion I feel from making music. 
There's this feeling you get of absolute silence when you know that the crowd are listening, and that silence is louder than anything else I've ever heard in my life. 
Those are my moments of absolute bliss. 
I feel sorry for people who can't feel those moments of euphoria. 
But in order to feel passion you have to be passionate about something in the first place. 
For me that's music."

Willy DeVille 
(27 de agosto de 1953 - 7 de agosto de 2009)


sábado, 12 de dezembro de 2015

Felicidade



Hoje o meu dia foi um dia especialmente bom.
Senti aquilo que eu chamo felicidade.
Felicidade que é algo que todos os seres procuram e quase sempre não encontram.
Felicidade que eu hoje entendo como a capacidade de sentir emoções positivas, ou seja, todas aquelas emoções que são sinónimo de prazer, mas com um significado, com um fim.
Pois sempre que buscava a felicidade somente no usufruto de emoções positivas, acabava frustrado pois só elas não me davam uma felicidade douradoura.
É que para sentir uma felicidade douradoura, ou seja, um prazer continuado no tempo e que pode ser renovado, há que apreciar a viagem mas também apreciar a chegada.
E neste campo descobri que ajudar os outros cabe nesta definição de felicidade.
Conseguir sentir prazer no acto de ajudar outros seres humanos sabendo que isso também irá ser benéfico no futuro para mim.
E aqui a gratidão tem uma palavra a dizer.
A gratidão que sinto por quem me ajudou numa fase crucial da minha vida.
E deixar que ela me motive para eu também ajudar outros que estão hoje na situação em que já estive.
Colocar de lado o egoismo que me faz somente retirar  prazer daquilo que os outros fazem por mim.
E hoje foi um dia em que fiz isso.
Um dia em que o prazer que senti foi ter-me levantado cedo para ir ajudar seres humanos iguais a mim que estão a precisar de ajuda. Ajuda que eu posso dar.
Em que o prazer foi retirado só por sentir que eu estava a ser útil para eles.
Do mesmo modo como outros já foram úteis para mim.
E sentir que isso contribuiu para que eu seja um melhor ser humano.
E em resultado disso sentir que a vida afinal faz sentido.
E que eu posso decidir se ela terá um sentido positivo ou não.
Em suma, eu tenho o poder de ser feliz.
Todos temos.

Facebook...

Costuma-se dizer que se todos gostassemos de amarelo o mundo seria sensaborão.
Concordo, pois não existem dois seres humanos iguais.
Então porque será que há quem leve a mal haver diferenças de opinião?
Devia ser algo natural. 
Algo até trivial.
Mas há quem viva na ilusão de que se consegue mudar a opinião de outra pessoa usando a violência, seja ela verbal, escrita ou mesmo física.
Há quem esteja tão iludido que acha que uma opinião é uma questão de princípio, em que o seu princípio é o único válido.
Ilusão essa que lhe diz que vencer uma discussão é algo primordial para o seu Ego. 
Algo vital para a sua auto-estima.
Bom, para esses, existem psicólogos e grupos de auto-ajuda.
Para quem leva com eles no Facebook existe a função de bloqueio.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Luto

Na Psicologia aprende-se que o luto é um processo com 5 fases.
Negação, Raiva, Negociação, Depressão e finalmente, a Aceitação.
Também se diz que não existe uma ordem nas fases nem uma duração, quer das fases quer do processo em si.
Já li muita coisa acerca disto e até consigo identificar estas fases.
O facto de durante meses a minha mente ter negado a morte da Flika, a raiva que sinto quando me apetece bater no Universo por isto ter acontecido, o modo como a minha mente negoceia a sua morte numa tentativa de me sentir no controlo da situação e a dor que diariamente me assola.
Na verdade, ás vezes consigo identificar todas estas fases durante as mesmas 24 horas.
Até chego a pensar que finalmente estou a atingir a aceitação.
Isto é, até entrar em casa e, sem pensar no que faço ou penso, ouvi-la a descer do sofá para me vir saudar. Ou quando estou a comer na cozinha e a vejo com o focinho na minha perna. Ou quando estou na cama e a minha mão a vai procurar. Ou quando penso no dia seguinte e este parece ser algo sem sentido.
É como o amputado que sente dor numa perna que já não existe.
E não há nada a fazer.
Não há uma solução milagrosa para a dor e para o vazio.
A não ser sentir o que houver para sentir, chorar o que houver para chorar e viver um dia de cada vez honrando a sua presença nesta vida, amando como ela me ensinou a amar e
ajudando outros seres vivos como ela me ajudou a mim.





terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A vitória do Daesh nas eleições de França

Não gosto de radicalismo. Ponto.
Assim, fiquei triste ao saber da vitória da extrema-direita em França.
A democracia tem destas coisas.
Em democracia toda a gente pode votar.
Mesmo os ignorantes e os pouco esclarecidos.
Até os imbecis.
A não ser que estejam interditos, o que, infelizmente, na maioria dos casos não acontece.
De tal modo não acontece que alguns deles até vingam na vida política.
Chegando a ganhar eleições.
E há que aceitar os resultados, sejam eles quais forem pois é a regra do jogo.
Mas isso não me impede de, no caso da França, ficar duplamente triste.

É que a vitória da extrema-direita é a vitória do Daesh.
É a vitória da sua estratégia.
As dificuldades que se adivinham para os refugiados que chegam á Europa fugindo do terrorismo, bem como o recrusceder das dificuldades para os muçulmanos que já estão em França, vão alimentar ainda mais as fontes de recrutamento do Daesh.
Assim não vamos lá.

You ain't no Muslim, bruv




Durante o ataque terrorista do passado Sábado no Metro de Londres, pode-se ouvir alguém gritar para o terrorista "Tu não és muçulmano, irmão".
Este grito tornou-se viral, tornando-se a palavra de ordem dos muçulmanos no que concerne aos atos do Daesh.
E não é difícil de entender isto, pois o Daesh não é uma organização muçulmana.
É uma organização terrorista que se baseia no Islão, o que é uma coisa completamente diferente.
Tal como o Klu Klux Klan se baseia no Cristianismo e ninguém anda por aí a chamar racistas e terroristas aos cristãos.
Aliás, uma aliada do Ocidente na luta contra o Daesh é uma organização muçulmana.
Chama-se Dawa Tabligh.
É uma organização secular que professa os ensinamentos mais ortodoxos do Islão e que veio colmatar o falhanço da Irmandade Muçulmana.
Funcionam um pouco como os Mórmones e Testemunhas de Jeová e já têm umas centenas de milhares de membros entre os quais muitos potenciais recrutas das organizações terroristas como o Daesh.
No campo da luta contra o recrutamento de terroristas está a conseguir mais resultados do que os serviços de inteligência dos países ocidentais.
As organizações jihadistas aproveitam-se dos erros do Ocidente, tais como a invasão do Iraque, que foi a mãe do Daesh, ou os guetos ostracizados onde nasceram os terroristas franceses e belgas que atacaram o Bataclan.
O Ocidente falhou completamente na integração de quem recebeu e com isso criou uma crise de identidade que é hoje a fonte de recrutamento do Daesh.
Vir agora culpar uma inteira religião é arranjar um bode expiatório para justificar esse falhanço.




segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Equanimidade



Há dias a minha psicóloga (sim...toda a gente deveria cuidar da sua saúde mental tal como cuidam da saúde fisica) disse-me algo que me fez pensar.
Eu estava a desabafar sobre a dificuldade que tenho tido em fazer o luto da minha Flika e ela disse-me que, em grande parte, tal se devia por eu ter "humanizado" a Flika...

Bate certo.
Quando se considera os animais como seres de algum modo inferiores a nós - mesmo que isso seja feito a um nivel inconsciente - obviamente que a nivel emocional os arrumamos num lugar diferente dos seres humanos.
Percepcionamo-los a um nivel diferente de nós.
Mas eu descobri que isso é uma ilusão.
Sem nenhum esforço ou trabalho intelectual eu transcendi esse pre-conceito.
Pois não passa de um pre-conceito sem nenhuma base existencial.
O convivio com a Flika derrubou esse pre-conceito que eu tive toda a minha vida e fez nascer um verdadeiro sentimento de equanimidade para com ela e que hoje faz parte de mim.
Daí que, para quem ainda se encontra preso nesse pre-conceito pareça ilógico que se sinta por um cão o mesmo que se sente por um ser humano.
Assim, não fui eu quem humanizou a Flika mas sim o contrário.
Foi ela quem me humanizou a mim. 
Foi ela que me transformou num ser humano um pouco mais livre de pre-conceitos ilusórios e assim mais próximo da minha verdadeira natureza.
E por isso a choro como quem chora por uma irmã ou companheira que partiu.
E por isso é que quando ela partiu, houve uma parte de mim que partiu com ela.
E a isso não há volta a dar.

Impermanência



Eu acredito que tudo no universo é impermanente.
Vida, morte, sentimentos, fenómenos, sensações, emoções, enfim tudo aquilo que percecionamos como sendo a realidade.
Se nos detivermos um pouco e pensarmos em algo que pensamos ser permanente, vemos que isso, seja lá o que for que analisemos, não passa de algo fugidio, fruto de causas e condições interdependentes, todas elas também impermanentes.
Por outro lado, na nossa busca pela felicidade, busca essa que é comum a todos os seres vivos, desde crianças que identificamos coisas e fenómenos exteriores como fonte de felicidade.
Ou é o corpo, o dinheiro, o trabalho, uma qualquer aptidão que possuimos, um sentimento ou uma emoção.
E o que acontece é que, no processo, passamos a identificarmo-nos com essa fonte de felicidade, ou seja, passamos a considerar que essa fonte de felicidade faz parte daquilo a que chamamos Ego, essa falsa identidade que construimos desde crianças fruto de não sabermos quem somos:
O "meu" corpo, a "minha" profissão, o "meu" dinheiro, a "minha" familia, o "meu" carro, a "minha" aptidão, etc etc.
A nossa autoestima passa a basear-se nessas pretensas fontes de felicidade que consideramos ser parte da nossa identidade pessoal.
Ora, como tudo é impermanente, quando algo que consideramos ser "Meu" ou "Minha" desaparece ou sofre uma mudança, lá se vai a autoestima e a sensação de felicidade pelo cano abaixo.
E passamos a vida neste processo de busca e perda que só gera sofrimento.
Mas há uma alternativa.
Ao contemplarmos a natureza impermanente de tudo e começarmos a olhar para a nossa verdadeira natureza que é imortal, tudo muda. A nossa verdadeira natureza é onde estão todas aquelas qualidades espirituais que as tradições religiosas falam.
Todos os seres humanos têm a capacidade de amar, no sentido de querer ver o outro feliz, sem apego. Pode estar destreinada, mas está cá.
Quem teve um filho sabe do que falo. Esse amor que dura até á morte.
Só temos que retirar o apego egoista da equação e deixar de ver o outro como "nosso". Se o fizermos, podemos desfrutar dessa felicidade que tanto buscamos.
Eu ainda não tive um filho humano, mas tive a Flika.
Essa fonte de amor incondicional que me ensinou a praticar o amor livre de apego.
Nesse campo sou um sortudo, pois o amor de um animal é mais estável do que o dos humanos. Não nos amuamos com eles, eles não se brigam conosco, enfim eles estão sempre ali, conosco, sem dúvidas.
E isto acontece pois eles aceitam naturalmente a impermanencia de tudo e amam sem apego, pois não têm essa identidade falsa a que chamamos Ego. 

Eles simplesmente SÃO.
O amor que sinto pela Flika não morreu com a sua partida desta vida.
Esse Amor transcendeu a morte pois ela está em mim e eu só quero a sua felicidade esteja ela onde estiver.
Essa é a felicidade que procuro.
Sem barreiras nem de tempo nem de espaço e que é imortal.
Tudo o resto são fogachos.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Elos


Penso nela todos os dias. 
Na minha Avó.
Quando era criança lembro-me de rezar e pedir para que eu morresse primeiro. 
É claro que isso era egoísmo infantil. Era querer que aquele amor todo, aquele carinho inesgotável, não acabasse nunca.
Assim como queria que nunca acabasse aquela incapacidade que ela tinha de dizer "Não".
Incapacidade que durou toda a sua vida. Pelo menos comigo.
Eu nunca fui de abraços e beijinhos. 
Nunca soube muito bem como mostrar e demonstrar o que sentia. Aliás, estou ainda em fase de aprendizagem.
Mas ela nunca se importou com isso.
Pois ela não esperava nada em troca. A não ser a minha felicidade.
Pois ela ficava feliz com a minha felicidade.
Pois ela sofria quando eu sofria e alegrava-se com a minha alegria.
Mesmo que não concordasse comigo ou não gostasse daquilo que eu fazia.
Pois ela perdoava tudo. Mesmo o imperdoável.
E criou-se um elo. 
Um elo que até hoje não consigo explicar, conceptualizar.
Um elo que resistiu á distância espacial e ás intempéries da minha vida.
Um elo com o único ser humano com quem eu nunca me zanguei.
Um elo indestrutível. Imortal. 




sábado, 5 de dezembro de 2015

AMAR

Amar é sentir-me Uno com quem amo
Sem conceitos de Eu e Tu
Pois Amar é transcender os conceitos


AMOR


Amor não é apego.
Amor não é querer algo que o objeto do nosso amor nos possa dar.
Amor é querer a felicidade do outro
Sem querer nada em troca.
Amor é ficar alegre com a alegria do outro
E sofrer com o seu sofrimento.
Mesmo que o outro não seja humano.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Foi há 4 anos...


Foi há 4 anos que me estreei num combate de Mixed Martial Arts
Fui o mais idoso de sempre a estrear-se num combate de MMA. Tinha 51 anos.
Tal como para todos os desafios na vida, precisei de outros seres humanos. Pois tudo é interdependente.
Nomeio aqui o Mestre Heitor Moura da Fight Club pois ele representa todos esses outros que me ajudaram a ter entrado no tapete nesse dia de 2011.



A Flika partiu desta vida há 9 meses e todos os dias sem excepção eu procuro aplicar na minha vida uma grande lição que ela me ensinou: Que o mais sábio é aceitar a vida tal como ela se apresenta.
Com serenidade.
Abraçando-a.
Bocejando e dormindo uma sesta a seguir a um ataque de epilepsia, tal como ela fazia.
Enquanto eu amaldiçoava os céus debatendo-me com a minha impotência perante a doença dela.
Doença que ela aceitou tal e qual como aceitava as secas que eu lhe dava antes de irmos dormir.
Sem graduar ou conceptualizar os fenómenos que aconteciam na sua vida. Sem os classificar como Bom ou Mau.
A Flika gostava mais de umas coisas do que de outras. E fazia má cara quando não gostava de algo ou quando sentia dor.
Mas assim que a sensação desagradável ou a dor desapareciam também desaparecia a má cara.
Pois ela não re-sentia nada.
Absolutamente nada.
Como se soubesse desde sempre o desperdicio que é sentir a mesma coisa mais do que uma vez.
Ao contrário de mim que todos os dias re-sinto a sua partida.
Todos os dias me levanto sentindo que parte de mim partiu com ela.
Embora ela esteja sempre comigo.
Pois o Amor não morre.

A razão de ser deste blogue

A minha Flika além de companheira, foi uma mestre para mim.
Todas as minhas percepções e conceitos relativos ao Amor e á Felicidade mudaram desde que ela entrou na minha vida.
Eu acredito que todos os seres vivos, sem excepção, têm duas coisas em comum e que são como que o ADN geral de tudo o que é vida no Universo.
Todos nós fugimos do sofrimento e todos nós buscamos, seja de que modo for, a felicidade. Desde o insecto que busca avidamente satisfazer as suas necessidades básicas de sobrevivencia até ao ser humano, todos os seres vivos, cada espécie á sua maneira, busca a felicidade, o sentir-se bem.
E todas as espécies não gostam de sofrer, só variando o grau em que é percepcionado o sofrimento. Outra coisa que acredito ser universal é a natureza impermanente de todos os fenómenos.
Tudo muda, nada é estável.
E, até hoje, não conheci um único ser humano que lidasse bem com a mudança, com a impermanencia.
O ser humano desde cedo começa a identificar-se com a felicidade em coisas, emoções e sentimentos intrinsecamente impermanentes.
E quando elas acabam, surge a frustração e a busca por nova sensação.
Os brinquedos deixam de ter piada, os namoros e relações acabam, o corpo envelhece ou engorda, o emprego acaba, enfim, tudo tem um fim.
Se pensarmos bem, rigorosamente nada dura para sempre.
E o que acontece é que passamos uma vida inteira agarrados a coisas fogazes e a saltitar entre o beijo da felicidade e o sofrimento quando esse beijo termina.
Os animais pelo contrário estão-se borrifando para isso.
Aceitam naturalmente a impermanencia que a nós incomoda.
Simplesmente, são.
A Flika não tinha maus dias e bons dias.
Simplesmente tinha... dias.
Aceitava tanto o sol como a chuva, a noite como o dia.
Até a doença aceitou naturalmente.
Tal como aceitou a morte. Serenamente.
E foi vivendo com ela que percebi a benesse que é viver o momento presente, que é a única realidade que temos.
Que a felicidade se busca de dentro para fora e não de fora para dentro.
Que felicidade é amar por amar.
Que amar sem apego é permanente. Imutável.
Transcende a morte.