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domingo, 24 de janeiro de 2016

Reencontro e Despedida



Existem doenças tramadas.
Doenças que além de nos fazerem mal, fazem mal a quem nos rodeia.
É o meu caso.
Em Agosto de 2014, uma dessas doenças afastou-me da Flika.
Aliás, afastou-me da vida.
Não interessa minimamente saber que doença é, pois o que é, é, e nada mais interessa.
E o que é, foi um corte brutal com a vida que eu tinha. Para o bem e para o mal.
Num dia estava a viver com ela e no outro estava a quilómetros dela.
E, a partir desse dia, enquanto lutava com todas as minhas forças contra essa doença, fui criando metas para a minha vida.
Objectivos concretizavéis que tornassem justificado o sofrimento fisico e emocional que estava diariamente a suportar.
E uma dessas metas era reunir-me com ela e recomeçar o resto das nossas vidas.
E, passados cinco meses, o dia do reencontro aconteceu.
Não na nossa casa, mas numa casa que me é querida e onde ela foi acarinhada enquanto esperou por mim.
Foi algo de maravilhoso poder tornar a ve-la, senti-la, beija-la.
Tornar a sentir o calor do seu corpo encostado a mim.
Tornar a ver as suas pequenas idiosincrasias que a tornavam única e especial para mim.
Enfim, sentir que estavamos perto de tornar a ser uma familia.
E este foi o video que fiz nesse dia 23 de Janeiro de 2015.
O You Tube retirou a banda sonora por causa da questão de direitos de autor mas eu até prefiro reve-lo assim.
Em silencio. 
Para poder senti-lo sem interferencias.
Pois este é o ultimo video que fiz dela.
A morte iria chegar passado um mes e tal.
Sem dar aviso prévio.
Impiedosa e implacável.





quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Je suis Istambul et Jacarta


Nos últimos dois dias o Daesh perpretou mais dois atentados.
Um em Istambul e outro em Jacarta.
O modo como o Ocidente reagiu a estes dois atentados tem estado a ser diametralmente oposto ao modo como reagiu aos atentados de Paris.
Os media partilham notícias sucintas e curtas e nas redes sociais continua-se a discutir exatamente as mesmas coisas que se discutiam antes destes atentados.
Como se o que aconteceu na Turquia e na Indonésia fosse diferente do que aquilo que aconteceu em França.
Como se os seres humanos que morreram em Paris fossem diferentes ou tivessem mais significado do que aqueles que morreram em Istambul e em Jacarta.
Como se fosse moralmente aceitável que um ato terrorista tenha várias graduações consoante os locais onde é perpretado.
Todas estas considerações leva-me a esta pergunta:
Afinal qual a diferença entre as pessoas que se divertiam nas esplanadas de Paris e as pessoas que visitavam um local turístico em Istambul?
Nenhuma.
Não existe nenhuma diferença a não ser o modo como as suas mortes são percepcionadas e sentidas pelo público e pelos media.
O que não abona nada em favor da espécie humana.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Para onde vamos?



Isto do luto quando se perde um ser amado é muito tramado mesmo.
Além da saudade sente-se este vazio enorme fruto do apego á sua forma fisica.
Eu sinto falta da sua presença fisica, do seu calor, do seu abraço, enfim da forma dela.
Mas uma vez que isso terminou, embora eu ainda não tenha aceite esse facto, entra então a eterna pergunta:
O que acontece a seguir á morte?
Para onde foi ela, se é que foi para algum sítio?
Se foi para algum lado, será que é feliz?
Eu não fujo desta questão. 
Aliás, até medito muito neste assunto, pois é a única coisa que temos garantida nesta vida.
Ainda não cheguei a nenhuma conclusão pois como não existe prova cientifica de nada, estamos no campo da fé.
Mas alguma coisa se sabe.
Existem dezenas de testemunhos verificados de situações de quase-morte.
Situações em que existiu morte e o processo reverteu para a vida.
E todos os testemunhos são unanimes numa coisa.
Existe "algo" a seguir ao momento da morte, pois se não existisse, pura e simplesmente não haveria testemunhos de nada.
Seria o vazio e o vazio não se pode descrever em palavras.
O acreditar que a morte não é o fim de nada, evita que a minha dor se transforme em desespero pois acredito que ela não está aqui comigo na sua forma fisica mas está nalgum outro local.
Deste modo só me resta meditar sobre as hipóteses.
Vejamos:
Se existir uma alma subjacente á nossa forma fisica fico descansado pois ela foi uma boa alma.
Um alma que apesar de ter sofrido, só soube transmitir amor incondicional e que tocou todos os que com ela conviveram.
Assim, neste momento estará junto do seu Criador a olhar por mim e á minha espera.
Se não existir uma alma individualmente considerada, mas sim un continuum de karma e apegos a que chamamos "Eu" que vai seguindo de vida em vida até haver uma libertação do ciclo de renascimentos, então eu sei que ela terá tido um bom renascimento pois o facto de nesta vida não ter tido uma forma humana e de me ter amado incondicionalmente e ajudado a ser um melhor ser humano, fez com que muito do seu karma negativo acumulado em vidas anteriores se tenha desvanecido.
Mas há uma outra hipótese.
Segundo a doutrina budista Mayahana, existem seres que já atingiram a Iluminação e que por isso já não têm karma, não estando por isso sujeitos ao ciclo de morte e renascimento.
Contudo, esses seres iluminados fizeram o voto sagrado de continuarem a renascer o tempo e as vezes que forem necessárias afim de ajudarem todos os seres vivos a atingirem a Iluminação.
Esses seres são os bodhisatvas.
Seres que movidos pela Compaixão continuam a renascer afim de ajudarem outros a se libertarem do sofrimento.
E, segundo o budismo mayahana, esses seres podem tomar a forma de animais se tal for necessário para realizarem o seu compromisso de ajudar os seres vivos.
Eu não me arrogo a sabedoria nem o conhecimento suficiente para dizer qual destas hipóteses corresponde á realidade pois estou muito longe de ser iluminado.
Mas sei que, seja lá qual for, ela está bem pois praticou o Bem.
E a mim resta-me praticar o que ela me ensinou para poder ir ter com ela, seja lá onde for.




terça-feira, 5 de janeiro de 2016

4 de Janeiro de 2016


Ontem andei o dia todo mal-disposto.
Ou como se diz, de mal com a vida.
Tristeza geral, irritabilidade - ou seja, raiva - muita intolerância com tudo e com todos, uma impaciência sabe-se lá com o que, dificuldade em ver algo de positivo na minha vida.
Enfim, um dia para esquecer.
Se não tivesse conseguido sair desse poço de auto-piedade e raiva e aproveitado como aproveitei o aniversário do meu sobrinho e o quality time com a família, nem quero pensar como teria sido.
E o mais estranho é que não estava a perceber o motivo para isso.
Até ter chegado á noite e ler e ver algo acerca dela.
Aí percebi tudo.
O meu coração tem um alarme que me alerta todos os dias 4 do mês.
Pois foi num dia 4 que ela partiu.
Não sei se esta explicação é cientifica mas que me acontece lá isso acontece.
Pois não foi a primeira vez que aconteceu.
E de certeza, não será a última.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

4 de Janeiro de 2000



O que se diz a um sobrinho que faz hoje16 anos?
Sobrinho que também é meu afilhado?
Sinceramente não sei...
Lembrar-me de como eu era quando tinha 16 anos não ajuda pois estávamos em 1976 e essa época nada tem a ver com a que vivemos hoje.
E não acho que isso funcione assim.
Mas há coisas que não mudam com o tempo.
Há coisas que nos fazem ser melhores seres humanos quer vivamos em 1976 ou em 2016.
E nisso talvez possa ser útil para ele.
Talvez possa partilhar com ele algumas dessas coisas e esperar que ele possa evitar algumas das tentativas-erro que eu tive de ultrapassar desde 1976 até hoje.
Assim posso dizer-lhe que olhe para os outros seres humanos do mesmo modo como olha para si mesmo. 
Com os mesmos anseios, medos e desejos. 
Pois não existem nem raças, nem credos, nem géneros, mas tão-somente seres humanos.
Posso dizer-lhe que essa treta da competição não passa disso mesmo, duma treta.
Na vida não interessa superar o próximo mas sim superar-nos a nós próprios.
Aqueles de quem não gostamos são os nossos verdadeiros mestres pois é com eles que aprendemos a conhecer-nos.
Posso dizer-lhe para respeitar e honrar as mulheres que entrarem na sua vida pois só assim se respeitará a si próprio.
Posso dizer-lhe que a violência nada resolve e que a verdadeira coragem é ter medo mas não deixar de fazer o que é bom para nós apesar de sentirmos medo.
Posso dizer-lhe que a verdadeira felicidade é medida consoante aquilo que damos de nós aos outros e não no que os outros nos podem dar a nós.
Finalmente, posso dizer-lhe que olhe para os restantes seres vivos como tendo igual direito que ele a uma vida sem sofrimento.
Pois todos dependemos uns dos outros, quer sejamos humanos ou não-humanos.
Parabéns, Tiago.