Olha Flikinha, pediram-me para escrever umas palavras que descrevesse a nossa relação.
Já sabes que isso não é fácil para mim pois além de me fazer sofrer parece-me sempre que as palavras ficam aquém dos sentimentos e das emoções.
Como posso descrever o laço que me une a ti em palavras?
Um laço que nem a morte quebrou?
Tu entraste na minha vida, uma vez que, logo desde o inicio, me abriste o coração.
Naquele dia em que te conheci, eu nunca pensaria que viria para casa com o compromisso assumido de adotar uma cadela.
Sim, porque naquela altura tu ainda eras somente uma cadela.
Eu ainda classificava os seres vivos em superiores e inferiores.
Algo que tu mudaste em mim em menos de um mês.
De uma forma simples e pura, sendo somente TU, fizeste com que todos os meus conceitos se alterassem.
Pois ao fim de um mês tu já não eras somente uma "cadela".
Eras minha filha.
Tu fizeste aquilo que nenhum ser humano havia conseguido.
Fizeste-me sair do meu umbigo.
E fomos-nos conhecendo.
Foi um processo onde, a partir de uma dada altura, também entrou a dor pois tu não eras saudável.
E isso serviu para que, sem qualquer esforço, eu começasse, pela primeira vez na minha vida, a colocar alguém sempre á minha frente.
Em que o meu único objetivo era fazer-te feliz.
Sem reservas.
Todas as vezes que tu tinhas um daqueles ataques horríveis eu rezava para que aquilo acontecesse a mim e não a ti.
E a nossa ligação foi-se fortalecendo.
Cada vez mais nos fomos conhecendo melhor.
A propósito disto, sabes que me dizem que com um cão é diferente porque supostamente vocês não falam connosco?
Pois é, como se tu não falasses comigo.
Esta parte é difícil de explicar ás pessoas, sabes?
Porque só quem a viveu é que sabe o que é a linguagem do coração.
A linguagem que não precisa de verbo.
A linguagem que é expressa com o olhar, com o gesto, com o comportamento.
Até com o som da respiração.
Eu sabia tudo o que tu sentias ou querias.
E tu sabias dizer-me tudo o que sentias e querias.
Até chegar ao ponto de eu sentir quando estavas ali atrás no sofá a olhar para mim a pedir para irmos dar uma volta.
Tal como tu sentias tudo o que se passava comigo, tudo o que eu estava a sentir.
Sempre.
Contigo nunca senti a falta da comunicação verbal.
Nunca me senti sozinho quando estávamos os dois aqui na sala, no carro, no jardim ou na nossa praia da Torre.
E quando passámos a viver os dois sozinhos, tudo se aprofundou.
A minha vida passou a ser vivida integralmente contigo.
Como uma matilha.
E aí além de minha filha, passaste a ser a minha companheira, a minha amiga.
Na verdade, é ingrato tentar colocar isto tudo em palavras.
Pois estamos a falar de simbiose.
Do entendimento perfeito entre dois seres.
Sem ciume, sem inveja.
Com entrega e sem reservas.
Em que se sente que nada mais falta.
Pois era assim que me fazias sentir.
Foi a primeira vez na minha vida em que me senti livre num relacionamento com outro ser vivo.
Em que não sentia necessidade de pedir algo em troca, em que nada esperava do outro lado, em que não sentia medo, insegurança, incerteza.
Em que sentia PAZ.
Uma paz que transbordava para todas as áreas da minha vida.
Pois tu ajudaste-me a ser um melhor ser humano.
Mais compassivo.
Mais tolerante.
E foi por isso que me salvaste a vida numa altura de doença.
Numa altura em que foste a minha ancora.
Pois, mesmo nessa altura em que eu funcionava em modo de sobrevivência, tu eras mais importante para mim do que eu próprio.
E então como é possível escrever umas linhas e ficar com a sensação mínima que descrevi o meu relacionamento contigo?
Não, não é possível isso acontecer.
Tudo será pouco.
Pois a sensação que tenho é que isto só acontece uma vez na vida.
Daí a sensação de que contigo partiu parte de mim.
E de que aquela PAZ que sentia contigo é agora uma quimera.
Pois os seres humanos tem características que tu não tinhas.
Nós somos egoístas, ciumentos, invejosos, intolerantes, arrogantes, controladores, manipuladores.
Vimos o mundo numa falsa perspetiva dualista, em que o nosso Eu está separado dos outros Eus.
Não somos capazes de amar incondicionalmente a não ser quando somos Mãe.
Brigamos, mentimos e ficamos ressentidos quando nos ofendem.
Até nos matamos uns aos outros.
Uns mais umas coisas, outros mais outras coisas.
Imagina tu que até há quem ganhe dinheiro a ensinar seres humanos a interagirem uns com os outros.
E a contrabalançar tudo isto somente temos mais alguns dígitos de QI do que tu.
O que é muito pouco.
Pois tu, com menos QI, ensinaste-me coisas que nunca ninguém me tinha ensinado.
Viver o momento presente sem estar agarrado ao passado e com medo do futuro.
Amar por amar.
Não ser preciso perdoar por não existir uma ofensa.
Contentamento.
Felicidade em SER e não em TER.
Tudo isto me ensinaste tu.
Sem falares comigo.
Pois tu foste muito mais do que a minha gorda preta teimosa.
Foste mais do que minha filha, minha companheira, minha amiga.
Tu foste, e ainda és, a minha Mestre.
Pois tu deste-me uma coisa que, á excepção dos meus Pais, é impossivel os outros seres humanos me darem.
Tu deste-me uma Garantia de Amor Eterno.
Uma fonte de Amor inesgotável.
Contigo, eu tinha, em vez de uma, duas certezas na vida.
A Morte e o teu Amor.
E agora voltei a ter só uma.
Pois os seres humanos tem características que tu não tinhas.
Nós somos egoístas, ciumentos, invejosos, intolerantes, arrogantes, controladores, manipuladores.
Vimos o mundo numa falsa perspetiva dualista, em que o nosso Eu está separado dos outros Eus.
Não somos capazes de amar incondicionalmente a não ser quando somos Mãe.
Brigamos, mentimos e ficamos ressentidos quando nos ofendem.
Até nos matamos uns aos outros.
Uns mais umas coisas, outros mais outras coisas.
Imagina tu que até há quem ganhe dinheiro a ensinar seres humanos a interagirem uns com os outros.
E a contrabalançar tudo isto somente temos mais alguns dígitos de QI do que tu.
O que é muito pouco.
Pois tu, com menos QI, ensinaste-me coisas que nunca ninguém me tinha ensinado.
Viver o momento presente sem estar agarrado ao passado e com medo do futuro.
Amar por amar.
Não ser preciso perdoar por não existir uma ofensa.
Contentamento.
Felicidade em SER e não em TER.
Tudo isto me ensinaste tu.
Sem falares comigo.
Pois tu foste muito mais do que a minha gorda preta teimosa.
Foste mais do que minha filha, minha companheira, minha amiga.
Tu foste, e ainda és, a minha Mestre.
Pois tu deste-me uma coisa que, á excepção dos meus Pais, é impossivel os outros seres humanos me darem.
Tu deste-me uma Garantia de Amor Eterno.
Uma fonte de Amor inesgotável.
Contigo, eu tinha, em vez de uma, duas certezas na vida.
A Morte e o teu Amor.
E agora voltei a ter só uma.


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